Nasci em um tradicional bairro em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, terra de gente de caráter, de historias de guerras, de mulheres determinadas, de tempestades e grandes figuras de varias etnias, que mudaram costumes e deixaram marcas reconhecíveis no povo gaúcho.
Os anos 60 do seculo XX, foram anos de mudanças mundiais, me parece que tudo passa numa velocidade nunca observada antes. A politica, o mundo feminino, guerras, musica, a arte tudo em estado de ebulição. E ai nasce também a Menina do Espelho, que vou chamar de Tarquínia, nome estranho para ser dado a um menina, por outra menina de 6 anos que nunca tinha ouvido falar de alguém com este nome.
O cenário do mundo de Tarquínia, era muito simples, um apartamento de 75 metros quadrados, no primeiro andar , de um prédio de classe popular no centro do bairro que concentrava grande população de descendentes de italianos, judeus, portugueses, turcos, alemães, espanhóis,argentinos, uruguaios, bolivianos e nem sei bem como estavam divididos na época, a cidade tem uma população de descendentes de 26 etnias.
Lembro do roupeiro do quarto dos meus pais, estilo clássico dos nos 50, marrom mesclado, pés palito, e quando abria a porta tinha ali um grande espelho. Um dia parei na frente e sorri com meu cabelo curto, liso, a franja entrando no olho, o que me fazia franzir o nariz, pra afastar os fios que me impediam a visão. Lembro que olhei a menina ali dentro do espelho e logo ficamos amigas, ela sorriu pra mim e eu pude ver o grande buraco aberto pelos dentes que faltavam na frente em cima e em baixo, Fiquei logo encantada e curiosa.
Do lado de dentro do espelho tinha uma longa estrada atras da menina, que cortava ao meio um campo verde, muito claro pontilhado de margaridinhas amarelas, o céu era azul com nuvens robustas arredondadas; ao lado direito da menina uma grande arvore também com flores amarelas e que mais tarde descobri ser um ipê, do lado esquerdo grandes plátanos com as folhas verdes formavam um paredão fechando a estrada que serpenteava no meio. Quer brincar comigo? Sou Tarquínia, e eu moro la no fim da estrada. Foi na hora, Tinha tanto sol, tanta luz, o verdinho mais bonito que eu já tinha visto e entrei. Entrei naquele espelho e parece que ali o tempo não passava, brincávamos horas debaixo do Ipê correndo no meio dos plátanos e o tempo era generoso permitindo tudo que meu coraçãozinho de criança sonhava. Foram anos e aventuras ao lado dela, da menina do espelho, da menina de nome esquisito.
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